10/02/2019 - 04:06

Peritos investigam se havia poliuretano no contêiner que pegou fogo

Por Bette Lucchese e Hélter Duarte
G1
Os peritos que investigam o incêndio que matou 10 atletas no Centro de Treinamento do Flamengo, o Ninho do Urubu, querem saber se havia poliuretano na estrutura dos contêineres. O poliuretano é o mesmo material – altamente inflamável – usado na Boate Kiss, que pegou fogo em 2013, com 242 pessoas mortas e quase 700 feridos.

Os peritos que trabalharam neste sábado (9) no centro de treinamento se concentraram no material utilizado no acabamento dos contêineres por dentro. Uma fonte ouvida pelo Jornal Nacional contou que os peritos encontraram espuma em parte dos painéis – instalados como se fossem paredes.

Em sua página na internet, a NHJ, empresa que instalou o contêineres no alojamento do Ninho do Urubu, informa que usa poliuretano injetado no meio dos painéis que, segundo a empresa, são de chapas de aço, dos dois lados. Até a noite deste sábado (9), no entanto, a empresa não respondeu se o módulo que pegou fogo era assim.

O poliuretano é uma mistura de produtos químicos que se transformam em espuma rígida após a aplicação, impedindo a passagem de ruídos e do calor.

Material inflamável

A Boate Kiss, em Santa Maria, no Rio Grande do Sul, usava placas com espuma de poliuretano. No incêndio em 2013, o fogo se alastrou em minutos e causou a tragédia. Especialistas explicam que o poliuretano é altamente inflamável e que a fumaça carrega gases tóxicos.


No caso do CT Ninho do Urubu, os peritos querem saber se houve uso de poliuretano e, principalmente, de que material eram as placas que revestiam a espuma – se eram mesmo placas de aço, como diz o site da empresa, ou de algum outro material como plástico ou compensado de madeira.

O engenheiro Gerardo Portela diz que o poliuretano não é adequado para o uso em alojamentos.

“Esse tipo de estrutura em sanduíche tem um limite de suportar calor, então enquanto é um princípio de incêndio e as pessoas estão acordadas para reagirem com rapidez, OK, ele ainda pode ser utilizado, no caso de um escritório, por exemplo. Com pessoas dormindo, como projetista eu não especificaria esse material."

A tragédia pode ter sido agravada pelo fato de a estrutura ter apenas uma porta de saída, segundo os peritos.

“Faltou fazer uma análise do arranjo daquela instalação para ver se tinha rotas de fuga suficiente pras pessoas saírem, mais de uma opção, faltou um sistema de alarme, de detecção de fumaça, de detecção de fogo (...) pra pessoas terem uma opção de saída antes de chegar no ponto que chegou."

Ausência de licenças
O Ninho do Urubu pertence ao Flamengo desde a década de 1980, mas só em 2010 o time profissional passou a treinar lá definitivamente, ainda em estruturas provisórias. No ano passado, o clube investiu R$ 26 milhões para modernizar o CT. Mas essa megaestrutura, de cinco mil metros quadrados, não tinha certificado de aprovação do Corpo de Bombeiros.


Segundo a corporação, o Flamengo deu entrada no projeto de segurança contra incêndios em 2010. Desde então, os bombeiros dizem que têm feito vistorias para checar o cumprimento das exigências - nunca completamente atendidas.

Veja a cronologia de desdobramentos:

Setembro de 2017: Flamengo pediu, segundo a prefeitura, o alvará de funcionamento para o centro de treinamento, mas sem o certificado de aprovação dos bombeiros.

16 de outubro de 2017: prefeitura multou o clube por manter o Ninho do Urubu funcionando sem o alvará.
20 de outubro de 2017: prefeitura emitiu um edital de interdição do CT. De lá pra cá, foram 31 multas.
abril de 2018: Flamengo apresentou um projeto para fazer uma nova construção no terreno. Segundo a prefeitura, o local que pegou fogo constava nesse projeto como um estacionamento - não como alojamento. E nunca nenhum pedido foi feito pra construção de dormitórios ali.
Novembro de 2018: os bombeiros fizeram a mais recente vistoria no CT. Mais uma vez, não emitiram o certificado de aprovação porque ainda havia pendências em relação ao projeto de segurança. Em nota, a corporação disse que não interditou o centro porque não constatou riscos que justificassem legalmente a interdição imediata.
12 de dezembro de 2018: a prefeitura aplicou a mais recente multa ao Flamengo, por descumprir a ordem de interdição.
A prefeitura informou, em nota, que não tem poder de fechar as portas do CT de forma ostensiva e que qualquer outra atuação, além das medidas tomadas, não cabe à prefeitura.

“O que ficou faltando foi adotar as providências no sentido do cumprimento prático da sua decisão. Ainda que com o auxílio de força policial. Na pior das hipóteses, a prefeitura poderia ainda ter buscado uma ordem judicial mediante uma ação perante o poder judiciário e não o fez. E isso caracteriza uma grave omissão”, afirmou o professor de direito da Uerj Gustavo Binenbjom.

CEO do Flamengo se pronuncia
No fim da tarde, o diretor-executivo do Flamengo, Reinaldo Belotti, fez um pronunciamento. Ele falou que as multas e a falta de licença não têm relação com a tragédia.

“Na realidade, isso não tem nada a ver com o acidente que ocorreu. Nós temos algumas providências a serem tomadas pra tornar o CT plenamente legalizado, estamos trabalhando arduamente nisso, com o Corpo de Bombeiros (...) Sem contar que esse modulo de alojamento que nós estamos falando era conhecido por todos (...) Aquilo não era um puxadinho que a gente escondia, muito pelo contrário, era um alojamento confortável, adequado ao que se propunha e que nós mostrávamos pra todos com orgulho”, disse Belotti.
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