05/03/2018 - 04:47

Investigação de passaportes de líderes norte-coreanos revela trama mundial

Fernanda Odilla e Luís Barrucho / Fantastico
BBC / G1
O número do suposto passaporte brasileiro que teria sido usado pelo líder norte-coreano Kim Jong-un para pedir vistos e viajar por países ocidentais consta no sistema da Polícia Federal do Brasil como um documento regularmente emitido pelo Ministério das Relações Exteriores, segundo apurou a BBC Brasil com uma fonte da corporação. Imagens do suposto documento foram divulgadas nesta terça-feira em uma reportagem da agência Reuters. Oficialmente, após a publicação dessa reportagem, a assessoria de imprensa da PF negou a informação. "Não há registros de tais documentos de viagem nos sistemas da Polícia Federal", diz a nota.

Nas fotos, em preto e branco, é possível ver um retrato do líder coreano ao lado do nome Josef Pwag, que seria um cidadão brasileiro nascido em São Paulo em primeiro de fevereiro de 1983. Há também informações sobre data e local de expedição, prazo de validade e a assinatura do então conselheiro da Embaixada do Brasil em Praga, Antônio José Maria de Souza e Silva.

De acordo com a fonte da PF ouvida pela BBC, um documento de passaporte com o número CE 375366 foi efetivamente emitido, e, no sistema da Polícia Federal, órgão responsável pela emissão desse tipo de documento no país, Josef Pwag aparece como o titular. A emissão se deu em Praga, na República Tcheca, em 26 de fevereiro de 1996, e a validade era de 10 anos.

O nome, local e data de nascimento, bem como as informações de filiação que constam no sistema da polícia como sendo relacionados a esse passaporte são exatamente os mesmos da imagem divulgada pela Reuters.

No entanto, ainda não é possível afirmar se o documento foi adulterado ou mesmo emitido com a foto de Kim Jong-un ou com a de outra pessoa.

Trata-se de um passaporte antigo, emitido há mais de 20 anos, época em que os sistemas não eram completamente informatizados e que os itens de segurança eram bastante diferentes dos adotados pelas autoridades hoje.

Um passaporte anterior, também brasileiro, teria sido emitido no início dos anos 1990 em nome do mesmo Josef Pwag. Associado a esse primeiro passaporte de Pwag, que tinha o número CD721247, consta uma observação assinalada como "suspeita de violar imigração japonesa" com data de 1995. Não há, contudo, detalhes de que tipo de crime imigratório supostamente teria sido cometido, tampouco se a polícia brasileira investigou o caso.

Segundo a Reuters, além do líder coreano, o pai dele, Kim Jong-il, também usou um passaporte brasileiro com o nome de Ijong Tchoi e com carimbo da Embaixada do Brasil em Praga. Quatro fontes de segurança europeias consultadas pela Reuters confirmaram que os dois passaportes brasileiros com fotos dos Kim com os nomes de Josef Pwag e Ijong Tchoi foram utilizados para solicitar vistos em ao menos dois países ocidentais. A agência, contudo, não informa se os vistos foram obtidos.

O Ministério das Relações Exteriores (MRE) do Brasil não confirma nem nega a autenticidade dos documentos e também não diz se houve outros passaportes emitidos em nome de Josef Pwag e Ijong Tchoi. Limita-se a dizer que "está apurando os fatos a respeito do caso". Consultada, a Reuters afirma manter todas as informações publicadas e não ter nada a acrescentar sobre o assunto.

A história, que gerou enorme repercussão mundial, também deixou uma série de perguntas sem respostas. Veja o que já se sabe e o que ainda deve ser esclarecido no caso.

Os passaportes são autênticos?

O passaporte em nome de Josef Pwag consta no sistema da PF, mas isso não elimina a possibilidade de fraude no documento.

Segundo a BBC apurou, nos anos 1990, alguns dos critérios adotados pelo Itamaraty para emissão de passaportes eram diferentes dos adotados pela Polícia Federal. As embaixadas e consulados são os órgãos responsáveis por emitir esse tipo de documento no exterior, enquanto no Brasil a emissão fica a cargo da autoridade policial. Além disso, documentos daquela época tinham menos dispositivos de segurança. Outro ponto é que somente depois de emitir os documentos é que o MRE comunica a PF.

Não se sabe, por exemplo, quais documentos foram apresentados para a emissão dos passaportes. Podem ter sido usados documentos falsos, como certidão de nascimento ou carteira de identidade, para confeccionar um passaporte legítimo com a foto de Kim e os dados de Pwag. Há ainda a chance de a foto do documento ter sido trocada posteriormente, isto é, depois que o passaporte foi emitido, para que o norte-coreano pudesse viajar com outra identidade.

Policiais ouvidos pela BBC Brasil dizem que não se pode descartar também a hipótese de crime na unidade diplomática que emitiu o passaporte, tampouco a possibilidade de ter sido feita uma montagem para espalhar a informação, nesse caso falsa, de que Kim usaria um passaporte brasileiro.
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