02/10/2017 - 12:20

Partidos políticos trocam de nome e especialistas explicam o que NÃO muda

Para cientistas políticos ouvidos pelo Correio, alterações estão relacionadas a uma tentativa das siglas de se desvincular de episódios passados e até mesmo da política

Correio Braziliense
Pelo nome que lhe é dado no batismo, você será conhecido por toda a vida. Tudo o que você fizer — para o bem e para o mal — será associado a ele. Na hora de ganhar um prêmio, seu nome estará lá. Se for responder por um crime, também. Agora imagine se você se envolvesse em algum tipo de problema e, como em um passe de mágica, tivesse a oportunidade de mudar de nome e apagar tudo de ruim que aconteceu?

Nos últimos dez anos, o Brasil tem observado um movimento de mudanças estruturais nos nomes de alguns partidos políticos. Eles não apenas mudaram suas nomenclaturas. Trocaram as siglas por palavras e se desvincularam da letra "P", que abreviava a palavra partido. Desde 2007, dois deles oficializaram a mudança no Tribunal Superior Eleitoral (TSE), mais dois estão com o processo em tramitação e outros dois já anunciaram a intenção de mudar, apesar de ainda não ter formalizado o desejo. Há ainda outros três recém-criados que foram batizados já seguindo essa onda.

Apesar de todos os partidos negarem, para especialistas, essa mudança está, sim, relacionada a um desejo de esconder ou se desvincular do passado. "Parece uma estratégia de marketing, mudando um nome desgastado para algo que o eleitor não associe. É curioso que, além de excluírem o 'P', eles adotaram nomes que passam uma ideia de movimento, que é um tipo de representação política que não tem acesso à eleição", pontua o professor Glauco Peres da Silva, do departamento de Ciência Política da Universidade de São Paulo (USP). Como exemplo desses movimentos sem acesso às eleições, ele cita o Movimento Brasil Livre (MBL), que ganhou força nas manifestações pró-impeachment da ex-presidente Dilma Rousseff, iniciadas em 2015.

Para o professor Creomar de Souza, da Universidade Católica de Brasília (UCB), a ideia de se desvincular do passado parece ainda mais plausível se levarmos em consideração o momento histórico do país, em que a maior parte da população demonstra imensa insatisfação com a política. Prova disso foram as eleições suplementares no Amazonas. Depois de governador e vice, eleitos em 2014, serem cassados por compra de votos, os amazonenses precisaram voltar às urnas no fim do mês passado. No segundo turno, as abstenções e os votos brancos e nulos somaram 49,6%. Ou seja, quase metade dos eleitores não quis escolher um dos candidatos.

"A gente tem dois fenômenos claros derivados dos últimos tempos, de 2014 para cá. O primeiro é o enorme desgaste da representação política. Os mandatários têm sido muito cobrados pela incapacidade de entregar o que prometem. O segundo é a perspectiva de que a política se tornou uma atividade para espíritos pouco nobres. O cidadão comum passou a achar que a política é lugar de criminoso", avalia o docente da UCB.

Um ponto importante ressaltado pelos dois especialistas é que as mudanças de nome não representam — como deveriam — uma mudança de postura ou de ideologia dos partidos. "As ideologias continuam tão ruins quanto antes", dispara Silva. "A classe política poderia fazer duas coisas: um mea culpa e criar novos processos para tornar a política benquista. Mas parece que eles estão buscando um atalho. Estão buscando construir maquiagens para disfarçar a incapacidade de dialogar com a população", afirma Souza.

Se essa estratégia vai funcionar? As urnas em 2018 é que vão dizer. "O efeito concreto ainda é difícil de ser avaliado. Mas se eu fosse político não acharia essa uma ideia absurda, porque você se livra de tudo o que é ruim. Pode não funcionar, mas a gente só vai descobrir depois", arremata o professor da USP. Caberá, então, a você, eleitor saber separar o joio do trigo nas próximas eleições.

O que dizem os partidos?

1-Avante

Luis Tibé, deputado e presidente nacional da sigla

O deputado Luis Tibé, presidente nacional do Avante, nega que a mudança de nome tenha relação com o desgaste da política brasileira. "Ela está ligada a uma reflexão que estávamos trabalhando desde 2016. Em 27 anos de história, nós buscamos pessoas que acreditam no mesmo que nós: na política do bem, na transparência e em um novo modo de atuar em favor do cidadão. Por isso, chegou um momento em que precisávamos incorporar esses ideais ao nosso nome e sermos reconhecidos por isso", explicou. "Somos um grupo político que pensa no futuro, que ouviu as ruas e o chamado das pessoas pedindo por mudança", finalizou.

2-Democracia Cristã

José Maria Eymael, presidente nacional da sigla

José Maria Eymael, que nas últimas três eleições foi postulante ao Palácio do Planalto, lembrou a história do movimento da democracia cristã no Brasil. Fundada em 1945, com o nome de Partido da Democracia Cristã (PDC), a sigla foi extinta durante a ditadura militar, até ser refundada em 1985. Em 1993, eles se unem ao Partido Democrático Social (PDS) e viram PSDC. Dois anos depois, tentam, sem sucesso, voltar ao antigo nome. "Pela lei, partidos que participaram de fusão não podem ser refundados. Desde então, alimentávamos a ideia de que nosso nome deveria ser Democracia Cristã. Se todos somos democratas cristãos, a qual partido devemos pertencer?", questiona Eymael. Sobre o tempo levado para oficializar essa mudança, ele diz que o partido "queria se preparar, ter a massa que tem hoje para promover a mudança". O ex-deputado também nega que a alteração possa estar relacionada a um desejo de esconder o passado: "Temos 72 anos de história sem mácula. Hoje, há essa insatisfação com a política que não nos atinge".

3-Democratas

José Agripino, senador e presidente nacional da sigla

Para o senador José Agripino, presidente nacional da sigla, a mudança, formalizada em 2007, após decisão da executiva do antigo PFL, não trouxe vantagens. "O PFL era um nome consolidado e o DEM não", afirmou. Dez anos depois, o partido estuda fazer uma nova mudança no nome. Mais uma vez, Agripino mostra-se contrário. "A mudança de nome não é uma prioridade. É possível que a gente faça uma avaliação, a decisão será colegiada. Mas eu, pessoalmente, não sou favorável. O que a gente está buscando é agregar novas ideias, novos quadros. A mudança de nome pode ser uma consequência", concluiu.

4-MDB

A reportagem solicitou entrevista com o senador e presidente nacional do PMDB [que já manifestou a intenção de voltar a ser chamado pela sigla MDB, como era na época de sua criação, durante o período da ditadura militar no Brasil], Romero Jucá. Até a última atualização, no entanto, não havia recebido resposta.

5-Novo

Por meio de uma nota enviada por e-mail, o Novo ressaltou que "nada tem para disfarçar ou confundir eleitores". A escolha do nome, de acordo com a nota, foi feita por uma das filhas do fundador e ex-presidente do partido João Amoedo. "Não há motivo diferente, apenas por ser algo novo", conclui o documento.

6-Patriota

Adilson Barroso, fundador e presidente nacional da sigla

A mudança de nome do PEN para Patriota teve um objetivo bem específico: atender a uma condição do deputado federal Jair Bolsonaro (PSC-RJ) para se filiar ao partido. O ex-militar é provável candidato à Presidência em 2018 e chega a liderar em alguns cenários das pesquisas de intenção de votos. "Fizemos uma pesquisa no Facebook, o nome Patriota venceu [derrotando a atual sigla PEN e Prona, nome do partido imortalizado por Enéas Carneiro] e vimos que o Bolsonaro tinha razão", detalhou Barroso. Com a nova nomenclatura, o Patriota também pretende mostrar que não é apegado apenas à questão ecológica. "Por mais que a gente goste de defender a sustentabilidade, as pessoas acabam entendendo que a gente é radicalista", justifica. Com uma analogia, o presidente ainda nega uma mudança para se desvincular da política: "Pode existir dois Roberto Carlos e dois Silvio Santos e eles serem completamente diferentes. O partido não tem culpa. Quem tem culpa são os dirigentes". Por fim, Barroso faz uma projeção otimista para o pleito de 2018, quando a sigla, possivelmente, terá Bolsonaro como representante na disputa pelo Planalto: "Só podemos perder para nós mesmos, se houver um compreendimento distorcido do nosso projeto".

7- Podemos

Renata Abreu, deputada e presidente nacional da sigla

De acordo com a deputada Renata Abreu, presidente nacional do Podemos, a mudança não foi apenas no nome do antigo PTN. "Foram dois anos de estudo, em que a gente se engajou para entender o porquê dessa crise de representatividade, desse distanciamento da sociedade da classe política", explica. Entre as mudanças de posicionamento e ideologia elencadas por Renata, a principal é a promoção da democracia direta, dando ao eleitor a chance de participar das principais decisões do partido. "Estamos em uma nova era que criou uma ruptura, gerou uma nova sociedade conectada. As relações sociais mudaram, mas os ares dessa mudança não chegaram na política", avaliou. Como o Podemos foi um dos primeiros partidos a trocar de nome seguindo a onda do abandono do "P", Renata acredita que algumas outras siglas possam ter copiado a ideia — "Tem muito oportunismo. Quando você faz e começa a dar certo, as pessoas acham que é só mudar o nome" — e alerta os eleitores para os perigos dessas mudanças: "A gente está olhando para o futuro, enquanto os outros estão querendo esconder o passado. A população precisa ficar atenta".

8- Rede Sustentabilidade

A reportagem solicitou entrevista com os porta-vozes da Rede [é assim que o partido chama os líderes de sua executiva nacional], Marina Silva e José Gustavo. Até a última atualização, no entanto, não havia recebido resposta.

9- Solidariedade 77

Paulo Pereira da Silva, fundador e presidente nacional da sigla

O nome Solidariedade surgiu "casualmente", segundo o fundador Paulo Pereira da Silva, o Paulinho da Força. "A ideia era ser Partido Socialista, até que alguém falou: 'vamos pôr Solidariedade'. Gostamos da ideia para sair dessa coisa de partido e criar uma marca e um programa sobre isso. Não é só fazer política, mas desenvolver ações de solidariedade mesmo", detalhou. Na avaliação dele, porém, o nome pouco convencional ainda para o eleitor pode impôr dificuldades em um primeiro momento. "O pessoal não acha que é partido. Acha que é movimento. Mas é uma dificuldade de que depois vai ajudar bem mais", ponderou. Sobre as mudanças nos demais partidos, Paulinho acredita que existam variadas razões. "Acho que tem uns querendo se esconder, outros se espelham em partidos de fora que têm dado certo. E tem muito da história do eleitor que não aguenta mais partido. Correm dos partidos", concluiu.

 
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