11/06/2018 - 04:54

Imprudência na direção ainda é a principal causa de morte no trânsito

Aline Oliveira
Correio do Estado
Um levantamento feito pelo Grupo de Análise de Acidentes no Trânsito, com base nos dados fornecidos pela Polícia Rodoviária Federal (PRF) e Polícia Militar (PM) aponta que entre os anos de 2016 e 2018 foram registrados 51.865 acidentes no Estado. Desde total, 24.515 não tiveram vítimas, enquanto que em 26.460 houve pessoas feridas. 

No entanto, a situação que mais preocupa é o número de mortes decorrentes de acidentes envolvendo veículos e motocicletas: 889 óbitos. Além disso, da janeiro a maio deste ano, o número de vítimas fatais no trânsito chegou a 101, o que representa 28%, do total registrado em todo ano de 2017: 366.

De acordo com o diretor-presidente do Departamento Estadual de Trânsito (Detran/MS), Roberto Hashioka, a maioria dos estudos sobre os fatores que propiciam os acidentes no trânsito indicam que 90% das colisões são causadas por falha humana: imprudência, imperícia e distração.

"Hoje verificamos que o excesso de velocidade, a combinação do álcool e direção, a falta do uso do cinto de segurança e o uso do celular ao volante, são apontadas como algumas das principais causas de mortes nas vias", destaca. 

A fim de comprovar as afirmações, o representante do órgão estadual recorda dados estatísticos coletados entre janeiro e maio deste ano, em Mato Grosso do Sul. O total de infrações foi de 159.611 mil registros sobre velocidade acima da permitida, episódios em que os motoristas ou passageiros dispensaram o cinto 2.269 casos, 12.409 em que o condutor falava ou manuseava o telefone e dirigir sob influência de álcool, 1.337 infrações. 

"O trânsito exige 100% da nossa atenção e a redução do número de acidentes está diretamente ligada a redução destas falhas, que na maior parte das vezes pode ser corrigida com a atitudes simples", argumenta Hashioka. 

FAZENDO DO LUTO, A LUTA

Jaqueline Tsalikis, 36 anos, bacharel em Educação Física, Técnica em Enfermagem é funcionária do Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (Samu), há 10 anos e no ano de 2015 entrou para estatísticas de vítimas de trânsito, situação que convivia diariamente. Um motociclista embriagado e pilotando uma motocicleta em alta velocidade, na contramão, colidiu frontalmente contra a profissional que ficou gravemente ferida e teve uma das pernas amputadas cima do joelho. 

"O que aconteceu comigo foi um crime de trânsito, porém, a falta de rigor na legislação  fez com que o autor também fosse considerado vítima, pelo fato de ter o pé amputado. Ele recebe atendimento pela Defensoria Pública e um salário mínimo mensal, custando R$ 12 mil por ano aos cofres públicos. Ou seja, um homem adulto que tinha consciência que estava alcoolizado quando decidiu pilotar. Isso na minha opinião é tentativa de homicídio", afirma a profissional.

Com apoio da família, Jaqueline está se recuperando, porém, ainda enfrenta sessões de fisioterapia e terá que fazer mais cirurgias reparadoras, sem contar o sentimento de impotência por ver o homem que quase tirou sua vida não ter sido responsabilizado.

"Graças a Deus voltei ao trabalho, mas, não da forma como atuava antes. Porém, ao invés de me lamentar, fiz do meu luto a minha luta e um dos trabalhos que realizo é ministrar palestra em escolas do ensino fundamental e médio, contribuindo para formação dos futuros condutores", pontua. 

NÃO FOI ACIDENTE

Em dezembro de 2017, o projeto de lei 5568/2013, mais conhecido como “Não foi acidente” foi aprovado pela Câmara dos Deputados, após 5 anos de espera. A proposta prevê o aumento da pena para motoristas embriagados responsáveis, principalmente, por causar mortes ao volante. 

O texto defende que o condutor sob efeito de álcool, acusado de homicídio, permaneça preso de 5 a 8 anos. Atualmente, um condutor de mata um pedestre atropelado, sob efeito de álcool ou drogas, é indiciado por homicídio culposo (não há intenção de matar). Se o atropelador for réu primário, pode pegar entre dois e quatro anos prisão, ter habilitação suspensa por um ano, e ainda, o período de reclusão poder ser convertido em serviços prestados a comunidade. 

"Quantas pessoas estão na minha condição ou tiveram a vida ceifada deixando filhos, pais, irmãos e amigos na orfandade. Pagamento de cesta básica não vai devolver a vida de um ente querido, por isso, é necessário que as penalidades sejam mais rigorosas", conclui Jaqueline. 

AÇÕES DE CONSCIENTIZAÇÃO

Conforme informado pelo diretor-presidente do Detran/MS, anualmente são realizadas ações de conscientização, abordando todas as faixas etárias, por intermédio da educação sobre segurança, respeito e gentileza, tanto para motoristas, quanto para pedestres. 

"Infelizmente, nós ainda temos alguns cidadãos que insistem em descumprir a legislação. Mas, acreditamos que com a nossa persistência, principalmente no que diz respeito à educação de trânsito a tendência é que a gente consiga reduzir o número de acidentes", observa. 

Mato Grosso do Sul participou da série de audiências públicas que têm objeto de contribuir com a implantação do Plano Nacional de Redução de Mortes e Lesões no Trânsito (Pnatrans). O plano foi instituído pela Lei 13.614/18, que teve origem no Projeto de Lei 8272/14, e prevê um regime de metas para redução de mortes no trânsito. 
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