Egito Antigo — Uma missão do Conselho Supremo de Antiguidades revirou o subsolo de Tell Athar Quesna, no delta do Nilo, e saiu de lá com um arsenal inesperado: centenas de estatuetas, amuletos e cerâmicas que abrem uma janela inédita para os ritos funerários e o comércio internacional do período tardio egípcio.
- Flash resumo: Arqueólogos catalogaram 560 ushabtis alinhados ao culto de Osíris dentro de um complexo funerário projetado milimetricamente.
Arquitetura planejada e postura “osiriana” dos mortos
O cemitério privado de Tell Athar Quesna não foi construído ao acaso. O salão principal leva a várias câmaras interligadas por arcos, e parte dessas passagens ainda está intacta, permitindo reconstituir a planta original do monumento. Mesmo sem a cobertura, o desenho sugere uma obra pensada para impressionar quem cruzasse o limiar entre a vida e o além.
Dentro dessas câmaras, os corpos apareceram deitados na “postura osiriana”, referência direta ao deus do renascimento. A posição indica intenção clara: garantir que o falecido fosse identificado com Osíris e, assim, renascesse entre os deuses. A conservação dos esqueletos varia bastante, reflexo de cerca de dois milênios de umidade, sal e deslocamentos de areia típicos do delta.
“Ao todo, os arqueólogos contabilizaram 560 peças de tamanhos e estilos distintos, todas representando a tradicional forma osiriana.”
Estatuetas, amuletos e pistas sobre rotas do Mediterrâneo
As protagonistas da descoberta são as estatuetas de faiança conhecidas como ushabtis, pequenas figuras que serviam de “serviçais” no além-túmulo. Muitas trazem inscrições inspiradas no Livro dos Mortos, reforçando o elo entre texto sagrado e objeto ritual. Junto a elas havia amuletos do Olho de Hórus, do Nó de Ísis e miniaturas de divindades, indícios de uma crença na proteção mágica durante a jornada pós-morte.
Os arqueólogos também encontraram lâmpadas a óleo, pratos, jarros e a alça de uma ânfora grega de Rodes com a assinatura do fabricante — prova física de que o Egito mantinha portas abertas para o comércio no Mediterrâneo. Em um vaso, restaram resíduos de substâncias usadas na mumificação, enquanto centenas de contas azuis e verdes apontam para a existência de uma fina rede funerária que cobria um dos sepultamentos.
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Perguntas Frequentes
Quantas ushabtis foram descobertas em Tell Athar Quesna e qual a importância desse número?
O complexo funerário de Tell Athar Quesna entregou 560 ushabtis, quantidade incomum para um único sepultamento e que sugere alto status do falecido no Período Tardio. O volume também ajuda a mapear variações estilísticas dessas figuras, essenciais para entender a logística funerária egípcia.
Quais objetos além das estatuetas reforçam a prática ritual encontrada na necrópole?
Na mesma escavação, pesquisadores listaram amuletos do Olho de Hórus, do Tyet e lâmpadas a óleo, além de contas de faiança azul e verde. Esses itens, descritos pela missão do Conselho Supremo de Antiguidades, confirmam a atenção aos detalhes mágicos e simbólicos nos enterros.
O que sinalizam as cerâmicas de Rodes encontradas no sítio egípcio?
Fragmentos de cerâmica de Rodes, incluindo a alça com o nome do fabricante, demonstram rotas comerciais ativas entre o Egito e a Grécia durante as eras greco-romana e tardia. Essa evidência material reforça que Tell Athar Quesna fazia parte de um circuito mediterrânico de bens de luxo e ideias.
Como os corpos estavam posicionados dentro do complexo de Tell Athar Quesna?
Os esqueletos, segundo a equipe, foram dispostos na postura osiriana, braços cruzados sobre o peito para imitar Osíris. A prática, comum a partir do Período Tardio, pretendia garantir renascimento do falecido, reforçando a relevância teológica do local descoberto no delta.
Houve alguma prática funerária incomum identificada na escavação?
Os arqueólogos relataram um enterro onde placas de cerâmica foram colocadas sob ambos os braços e entre as coxas do indivíduo. Esse arranjo, ainda sem explicação definitiva, pode apontar para um costume restrito à necrópole de Menoufia ou para um ritual específico de elite.
Mariana Costa