04/07/2018 - 04:30

Ambulante senegalês se desdobra para reencontrar cliente e devolver dinheiro que recebeu a mais

G1/ O Globo
Após praticar uma boa ação, o ambulante senegalês Moussa Niang, que vende óculos escuros na Praia da Barra, virou um sucesso na internet. Morador de Rio das Pedras, na Zona Oeste, ele fez questão de devolver os R$ 300 que havia recebido a mais de uma cliente. O dinheiro até poderia fazer muita diferença em sua vida, já que Moussa dá duro para ajudar a sustentar parentes que vivem na África. Apesar disso, o ambulante, que não fala português, desdobrou-se para reencontrar a carioca Juliana Figueiredo e fazê-la entender que tinha cometido um engano. Impressionada, ela contou a história numa rede social, e, desde então, o senegalês coleciona curtidas e elogios.

— Eu usei um cartão bancário para pagar um par de óculos, e ele digitou um valor errado. Como nunca pego o comprovante, não percebi nada. Meia hora depois, Moussa reapareceu. Estava nervoso, tentando se explicar — lembrou Juliana. — Poderia ter ficado na dele e embolsado R$ 300 a mais, já que, quando eu soubesse disso, seria tarde demais. Sua atitude foi maravilhosa. Infelizmente, hoje a gente se surpreende com as boas ações. Prova disso é a repercussão do caso na internet.

Como só fala algumas palavras em português, Moussa contou com a ajuda de seu amigo Khassin Loum, também senegalês, para esclarecer a situação. Os dois combinaram com Juliana de devolver o dinheiro no dia seguinte, quando o valor da compra cairia na conta bancária do ambulante. E eles cumpriram a promessa.

— Moussa nunca pensou em ficar com o dinheiro — disse Khassin, traduzindo o que o amigo falava no dialeto senegalês olof.— Para nós, devolver o dinheiro não foi nada de mais. Foi algo bem simples, pois aprendemos que ninguém não pode ficar com algo que não lhe pertence. Um dia, vai chegar a hora de Moussa se ver diante de Deus, e ele estará tranquilo.

Moussa e Khassin chegaram ao Brasil em 2015, mas em períodos diferentes. Ambos tinham o mesmo objetivo: conseguir trabalho. Não imaginavam as dificuldades que enfrentariam, e achavam que, no Rio, encontrariam a prosperidade. Filho de um professor de Matemática e formado em Direito pela Universidade do Senegal, na capital Dakar, Khassim esperava um emprego melhor que os disponíveis em seu país.

— É muito difícil conseguir trabalho aqui. Difícil mesmo. Pensei que trabalharia como ambulante até arranjar um emprego formal, mas, algum tempo depois, percebi que não há alternativa — afirmou Khassin, que fala árabe, francês e inglês, além de dialetos de Senegal.

Moussa tem origem mais humilde, e trabalhava numa mercearia no Senegal. Deixou na região de Matam a mulher e um filho — tinha esperança de trazê-los. Chegou a trabalhar em uma metalúrgica no Paraná, mas, como os salários atrasavam, decidiu tentar a sorte no Rio com um amigo. Acabou virando ambulante.

— Consegui juntar dinheiro para voltar ao Senegal em agosto — disse Moussa, acrescentando que pouco sai de casa, pois teme a violência carioca. — Espero conseguir trabalho e ficar por lá.

O senegalês levará na bagagem uma surpresa para seu filho Mustafá, de 6 anos: um belo caminhão azul de brinquedo, dado por Juliana em agradecimento por sua honestidade.


 
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